“Mantenha fora do alcance do bebê” – uma proposta de análise crítico-visual

Para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, o consumismo é um produto social que transforma pessoas em consumidores, rebaixando todos os outros aspectos da vida a um plano inferior e secundário; e os espaços destinados às compras operam como farmácias que, eventualmente, podem aliviar as aflições do cotidiano. Nesse aspecto, a fotografia pode ser uma péssima aliada desse modo de vida, já que redefine a natureza da experiência comum (ou ordinária) e tende a transformar tudo num sistema de informação e produto de consumo. As imagens fotográficas têm a capacidade de trazer cada vez mais conhecimento dissociado das nossas experiências.

 

Numa sociedade que pretende espantar a experiência do fracasso, dor, privação, desgraça e doença — e a morte é vista como uma calamidade cruel e imerecida — o ato de apreciar fotografias nos isenta dessa experimentação dolorosa, uma vez que o acontecimento impresso na imagem já ocorreu e estamos “a salvo”.

 

 

Essa incômoda constatação me afligiu ao assistir e fotografar o espetáculo “Mantenha fora do alcance do bebê”, escrito pela talentosa dramaturga mineira Silvia Gomez, apresentado na sala Jardel Filho, no Centro Cultural São Paulo. A obra retrata de forma extremamente potente uma sociedade consumista que carrega a incerteza de um tempo em que tudo se move em alta velocidade e que precisamos cada vez mais de atualização e renovação para não ficarmos “para trás” em relação aos hábitos e costumes dos que nos cercam: que é artificial e definido pelos valores liberais.

 

A direção de Eric Lenate é precisa e tensiona gradativamente o espectador por meio do embate psicológico entre as personagens de Débora Falabella e Ana Paula Csernik, numa entrevista para o processo de adoção de um bebê. A tensão da trama é entrecortada pelas aparições das personagens de Diego Dac e Jorge Emil, que desestabilizam o fluxo contínuo da cena e remetem o espectador para outros planos do enredo, sempre com a ajuda do cenário dinâmico e criativo, idealizado pelo diretor. A iluminação, de Aline Santini, e os figurinos, de Rosângela Ribeiro, contribuem para a grande beleza estética da encenação, característica marcante nos trabalhos de Lenate.

 

A fotografia, assim como o teatro, são fontes de surpresa e fazem pensar, imaginar, sonhar e ver. Elas também podem incitar a filosofar, já que solicitam uma recepção poética daquilo que vemos e podem abalar e enriquecer o nosso modo de pensar. São expressões artísticas que não fornecem uma resposta, mas “impõem” um enigma que conduz do real ao imaginário, mantendo-nos em estado de alerta, tal como um lobo à espreita.

 

Assim como um mesmo arquivo digital (ou negativo) pode gerar uma infinidade de imagens diferentes, um espetáculo teatral é uma obra aberta que adquire nova dimensão e novo destino na interpretação de cada espectador.

 

Por esse prisma, a caravana de senhoras que ocupava as primeiras fileiras do teatro, no intuito de consumir mais um signo da indústria televisiva, pode ter expurgado no efusivo aplauso a sensação de incerteza de estarem no caminho certo e a insegurança de não saber se as suas escolhas são as mais adequadas aos olhos da sociedade de consumo.

 

Talvez, por um outro viés, se pudesse afirmar: O teatro e seus artistas também podem operar como farmácias do nosso tempo.

 

Bob Sousa é fotógrafo de teatro e mestrando em Artes Cênicas no Instituto de Artes da Unesp sob a orientação do Prof. Dr. Alexandre Mate.