“Entrevista com Phedra”, texto de estreia de Miguel Arcanjo Prado, não é tão somente uma homenagem à diva cubana, que protagonizou um movimento teatral na Praça Roosevelt, capitaneado pela Cia. Os Satyros.

Trata-se de uma homenagem a todos os artistas do teatro latino-americano, a tudo que é sensível e humano, com todas suas potências e fragilidades. Nos mostra a maneira carinhosa como o autor enxerga cada artista, independentemente do espetáculo ou personagem, e os carrega pela mão, seja em suas entrevistas, criticas ou textos de apresentação que acompanham o “Retrato do Bob”, espaço que dividimos há quase 10 anos.

O espetáculo, além de poesia, é uma aula de jornalismo porque nele o autor nos ensina os limites entre a notícia e o humano, o público e o privado, a vida e a cena, sem se distanciar do tempo e da história. Com a boa escola do jornalismo literário, de Gay Talese, que aproxima o campo da não ficção com a ficção, a obra nos transporta para o mundo de Phedra e nos faz testemunha-ocular de acontecimentos históricos imbricados com a vida da atriz e décadas do universo teatral latino-americano.

Somado a tudo isso está o time de artistas que construíram a obra para entregar ao público como um presente/homenagem: Juan Manuel Tellategui, Robson Catalunha, Marcia Dailyn, Raphael Garcia, Gustavo Ferreira entre tantos outros. A montagem tem a capacidade de nos colocar dentro da sala do apartamento de Phedra ou nas boates e palcos onde ela esteve, num jogo ágil de luzes elaboradas por Diego Ribeiro e Rodolfo García Vázquez; e nas caracterizações revestidas pelos figurinos de Walério Araújo.

Eu, que tive a sorte de acompanhar grande parte dessas entrevistas e reportagens, também me sinto homenageado por estar diante de algo tão potente e verdadeiro e de ter sido, muitas vezes, carregado pelo riso doce e gentil de Miguel Arcanjo.

Vida longa ao autor. Viva, Phedra e o teatro latino-americano.

 

Bob Sousa é fotógrafo de teatro e mestre em Artes Cênicas pelo Instituto de Artes da Unesp.