kurt

Kurt Cobain dentro de casa

por Manuela Ramalho

Kurt Cobain nasceu em Alberdeen, uma pequena cidadezinha, de vida fria. No texto do monólogo “Aberdeen – Um Possível Kurt Cobain” escutamos Kurt dizer que carrega esse frio para onde for, não há como escapar. Foi a partir desse momento que eu voltei para a minha cidadezinha, também fria. Onde eu nasci, com vento gelado nos ossos. Ainda a sinto, e hoje passei o dia morando nela.

E depois que cheguei em casa, foi assim:

Havia um homem estranho na casa. Este homem estava me esperando no quarto, no escuro. Ele pediu para sentar um pouco, eu desconfiei, não parecia querer nada. Acho que ele pensava que não queria nada, mas buscava alguma justificativa para me procurar naquela hora, queria me explicar. Porque é normal ser essa a ordem dos fatos: algo estranho acontece e logo depois vem uma explicação, ou uma justificativa, ou uma mentira. Ele não tinha nenhuma delas. Ele apenas pediu para sentar e acho que nem sabia se realmente queria isso. Nenhum lugar do quarto estava bom para sentar, o chão sujo, tantas roupas, mais desordem. Eu amei aquele homem, mas desejei que fosse embora. Pois era tudo pequeno demais, o quarto, a janela, a cidadezinha. Não cabia mais ninguém. Eu era uma cidadezinha pequena demais para ele.

Uma vez me disseram que eu morreria de desilusão e foi talvez a vez que mais chorei na vida. Eu gostaria que isso não acontecesse então vivo perguntando para pessoas que talvez compreendam (desconhecidos na rua, amigos, estranhos que invadem a casa) e me dêem alternativas mais interessantes para o fim. Quis perguntar a ele, mas esperei.

De qualquer forma ele sentou no meio das minhas meias sujas, depois deitou em cima delas. E parecia confortável, parecia que estava bem, no lugar certo, tão encaixado. Parecia que ele tinha nascido ali, naquele instante. Toquei seus cabelos e sussurrei, perguntei como faço para não morrer de desilusão?. Ele apenas me deu um beijo, depois coçou o rosto com uma das meias encardidas. Queria dizer, e acho que disse, que o amava, e chorei pela minha miséria. Chorei até ter vontade de parar. E deitei ao seu lado. Não havia tamanho naquele quarto, o único lugar que existia era aquele ninho de roupas emboladas. Existia também um amor exagerado, alguma coisa dentro do peito, porque é dentro do peito mesmo, é ali que tudo acontece.

Então poderíamos ter começado a falar. Ele diria que tem espaço sobrando dentro de si, e uma mente humana não consegue com espaço demais. Perguntaria a ele o que acontece, ele me diria que a arte talvez não exista e eu pediria a ele para ficar quieto; não quero saber disso, não continue. Ele continuaria. O que existe é amor demais. Amor demais é um desacato. Fere as leis. A sociedade não sustenta amor demais, pois ele é bagunçado, ele confunde as coisas, é desordeiro e perigoso, ele testa os nossos limites. Amor demais é bem pior que a indiferença. Nunca fomos preparados para ele. Eu pediria para ele me explicar porque algumas pessoas sentem esse desespero dessa forma exata, no ódio, na destruição e amor extremos, que aumentam tudo de forma que a solidão é inevitável. O espaço é gigante, sem nada dentro, apenas um cérebro e partes do corpo navegando sozinhas, completamente inúteis.

Mas nada foi dito. Escrevi um bilhete: Eu rezaria por você, eu te pediria para me explicar, mas não quero entender agora, pois talvez morra de amor por ti, e talvez isso me faça desistir ou simplesmente perceber como as coisas são, de uma forma rápida demais. Com amor, Manuela.